segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Reconciliação com o adversário - A busca da liberdade e as perspectivas que nos aprisionam.

Caminhamos na vida através de movimentos de busca intensa pela liberdade, guiados por uma verdade interna que não compreendemos completamente enquanto nossos caminhos se cruzam com os caminhos de outras pessoas portadoras de suas próprias verdades a guiar-lhes as trajetórias.

Tendo o sentimento de aprisionamento e a certeza da possibilidade de liberdade a nos garantir a felicidade em algum momento, buscamos. Buscamos intensamente!

Centrados em nós mesmos e em nossa busca, muitas vezes deixamos de considerar o outro em sua caminhada e acabamos defrontados por poderosos adversários que se opõe à nossa caminhada e acabamos em conflitos infindáveis, causas de desvios, dores e muitos sofrimentos.

Mas será possível seguir rumo à felicidade por caminhos menos complicados?

Referências bibliográficas

O Evangelho Segundo o Espiritismo – Allan Kardec
O Livro dos Espíritos – Allan Kardec
O céu e o inferno – Allan Kardec
Grandes e pequenos problemas – Angel Aguarod
O Grande Enigma – Leon Dénis
No invisível e a guerra – Leon Dénis
O problema do ser, do destino e da dor – Leon Dénis
O progresso – Leon Dénis

Outros recursos

Animação A ponte - https://www.youtube.com/watch?v=CMC81uGoOcQ

Podcast

Podcast da Palestra realizada em reunião pública no Grupo Rita de Cássia, Rio de Janeiro/RJ, no dia 02/01/2016





Vídeo a ponte  


Um alce e um urso, ambos criaturas grandes e espaçosas, seguem em sentidos opostos, no limite de suas possibilidades, por uma ponte estreita de cordas e madeira. O alce segue distraído e sonolento e esbarra no urso que se irrita com o encontrão aparentemente desnecessário. Os dois querem passar, mas nenhum deles está disposto a ceder para que o outro tenha prioridade e iniciam uma discussão. Ambos são portadores das suas verdades e não acreditam na possibilidade de que outras verdades possam existir. Os ânimos esquentam, a tolerância é reduzida e não percebem que um guaxinim e um coelho também tentam atravessar a ponte. Seguindo também em sentidos opostos, encontram a ponte obstruída pelos enormes e irritados animais que os agridem e os jogam de volta para o início da ponte.

O guaxinim e o coelho não se dão por vencidos, mantém a tranquilidade e buscam uma solução para viabilizar a travessia do caminho que os impede de chegarem às suas verdades.  Tendo um problema em comum, o alce e o urso que os impede de atravessar, estando cada um de um lado, decidem roer as cordas que dão suporte a um dos lados fazendo com que a ponte tombe parcialmente reduzindo o espaço de passagem e retirando o suporte dos grandes animais que caem no rio liberando a passagem.

Livres do impedimento causado pelos grandes animais, os pequeninos retomam suas caminhadas e se encontram no meio da ponte. O impasse há pouco visto apresenta-se novamente, mas desta vez entre o coelho e o guaxinim.

A diferença desta vez é que os dois estão abertos para a vida e sabem que soluções conciliadas permitem que sigam suas buscas com esforços menores. O guaxinim, reconhecendo a capacidade do coelho em saltar, reduz a prioridade de sua caminhada em favor do outro e se abaixa para que o coelho salte por cima dele.

Seguem felizes e sem irritação, cada um na busca de sua verdade sem o risco de queda no rio sem a necessidade de escalar novamente a montanha.

Nós e a ponte


A vida frequentemente nos apresenta momentos em que nossas jornadas cruzam com jornadas de outras pessoas e algumas vezes estes encontros se dão sob a forma de impasses, encontrões da vida que se dá por estarmos olhando para direções diferentes. Os problemas surgem por que muitas vezes queremos prioridade em nossas caminhadas e não estamos dispostos a ceder para que o outro siga à nossa frente, como se vivêssemos em uma enorme competição em que ganha quem chegar primeiro.

Mas nem sempre os encontrões acabam em debates acalorados e brigas. Nossa postura diante das ocorrências da vida está intimamente ligada à nossa percepção da disponibilidade de recursos! Por vezes seguimos sentindo-nos no limite dos recursos disponíveis, sem margens; estamos usando a ponte inteira e não vemos possibilidade de sermos generosos para com o outro. Em outras situações sentimo-nos com fartura de recursos e percebemos que há espaço para que o outro passe também sem que ocorra prejuízo em nossa caminhada.

Olhando por outra perspectiva para a mesma questão, muitas vezes somos defrontados por verdades aparentemente menores que as nossas e optamos por menosprezá-las fazendo-nos superiores e mais fortes. Acabamos usando a nossa aparente superioridade para massacrar os menores sempre que sentimos a necessidade de nos afirmarmos, mesmo que para isto haja um custo elevado para o outro que não compartilha das mesmas verdades que nós.

Entretanto, a vida não é unicamente organizada por momentos de superioridade. Revezamos nossas experiências entre a posição de mais forte e do mais fraco! Quando estamos na posição do mais fraco, frequentemente nos esquecemos de nossos potenciais para o enfrentamento dos desafios apresentados. Perdemos a dimensão de nossos potenciais...

Esquecemos que não são apenas os grandes que são fortes. Os pequenos também possuem capacidades para superar os grandes problemas, basta que nos mantenhamos unidos e, para isso, devemos nos posicionar além das diferenças entre suas verdades aproveitando os pontos em comum entre elas para somar esforços. Esta decisão faz com que a disponibilidade de recursos na vida seja ampliada e resguarda-nos de riscos e esforços desnecessários como arranhões, hematomas e quedas de pontes de corda.

Mas há esperança para todos; mesmo para os brigões que se sentem superiores. Podemos optar pelo caminho do maior esforço, das maiores dores e, mesmo assim, a vida nos apresentará possibilidades de crescimento. O outro que se apresenta diante de nós dizendo-se portador de uma verdade melhor que a nossa, as brigas e arranhões delas decorrentes, o choro dos menores por nós agredidos e as pontes que caem sob os nossos pés é a iluminação divina que nos leva a questionarmos nossas verdades fazendo com que elas se ampliem em algum momento de nossa história, mesmo que seja durante a queda, quando nos abraçamos, choramos e lamentamos juntos.

Para onde estamos olhando?


Quando começamos a utilizar terminologias para classificar o outro que cruza o nosso caminho precisamos ter em mente que estas classificações sempre se darão de acordo com a forma como olhamos para ele, ou seja, de acordo com nossos valores, crenças e objetivos. Em outras palavras, classificamos os fatos e pessoas que se apresentam em nossas vidas de acordo com as nossas verdades.

Algumas pessoas podem ser vistas como tendo uma atitude favorável à nossa verdade e serão, portanto, classificadas de forma positiva. Há aquelas que apresentam aparente ameaça para nossas verdades e serão, consequentemente, classificadas como opositoras ou ameaças. Há ainda as classificações neutras que caracterizam tudo aquilo que aparentemente não interfere em nossa jornada de conquista plena das nossas verdades.

Nos acostumamos a utilizar os termos opositor, inimigo e adversário para caracterizar tudo o que concorre de forma contrária aos nossos sistemas de crenças e valores, que, de alguma forma, aparentam frustrar-nos em nossos objetivos oferecendo obstáculos consideráveis para nossas jornadas rumo à felicidade / verdade.

Para onde estamos olhando?

Para onde deveríamos estar olhando?

Sendo os olhares diferentes, como podemos modificar estes olhares?

Facilmente identificamos adversários. Governantes, times de futebol, bandidos, companheiros de trabalho, etc. Todos concorrendo para dificultar a construção de nossas verdades.

Nos sentimos como seres presos em uma ambiente restrito, finito e com poucos recursos. Ambiente sem o insuficiente para que todos nós cheguemos onde desejamos. Entendemos que alguns conseguirão e outros não...

Combatemos então pessoas, nos opomos a elas. Nos posicionamos diante do outro como estando diante de pessoas que precisam ser compreendidas, desculpadas, perdoadas, ajudadas pois ainda não foram “iluminadas” como nós.

Podemos ainda nos posicionar de uma forma menos cristã diante das mesmas pessoas e veremos, portanto, pessoas que precisam ter suas possibilidades restringidas, pessoas que precisam ser oprimidas, combatidas, eliminadas, destronadas uma vez que atrapalham nossa jornada rumo à felicidade.

Falamos, portanto, de supremacia; de um jogo de forças em que o mais forte, o mais belo, o mais inteligente, o mais rico se sobrepõe ao outro como merecedor de posições de destaque.

Mas falamos também de um constante diálogo a cerca de quais valores representam a supremacia. Há algum tempo a força dos exércitos era o que determinava a supremacia. Hoje, na era da informação, a detenção dos meios de comunicação, a inteligência e o constante desenvolvimento de novos conhecimentos é que determinam o jogo de forças a que muitas vezes nos submetemos.

Neste diálogo pela definição do sistema de força a ser usado criamos modelos de classificação  de pessoas e encontramos muitos fracos, aqueles que são ultrajados, menosprezados, ofendidos. Pessoas que se unem com objetivos de resistir à destruição e estabelecer novos sistemas de força, mais eficientes, para subverter o jogo da vida assumindo assim posições de mando e de liderança no ambiente de escassez em que nos encontramos.

Temos visto na história da humanidade novos sistemas e modelos de força sendo estabelecidos e gerando viradas épicas na construção das sociedades. O mando migra de um grupamento humano para outro sem que sejamos capazes de questionar a essência do conflito. Novos sistemas de poder se estabelecem e com eles novos conflitos e novas iniciativas de subversão que nos levarão inevitavelmente ao estabelecimento de outros  sistemas de força que destronem os poderosos dando acesso aos menos privilegiados no sistema corrente.

Na animação, o sistema de força estabelecido pelo alce e pelo urso é substituído por um novo, baseado na inteligência de ações pequenas e periféricas que é capaz de mudar a estrutura de poder sem que haja confronto direto.

Após a substituição do sistema de poder os dois pequenos animais, o guaxinim e o coelho  se encontram na centralidade do novo sistema estabelecido e podem, perfeitamente dar sequência aos combates, reproduzindo o jogo de poder vivido pelo urso e pelo alce. Optam, entretanto, pela ação pacífica e toleram-se um ao outro. Buscam uma ação conjunta que possa favorecer da melhor forma possível a ambos.

A grande questão é que temos mantido este olhar de conflito de forças e de substituição de sistemas de poder há muitos anos, embora já tenhamos tido contato com outras opções, e sigamos sofrendo e pagando o preço por nossas escolhas. É verdade que há progresso, e isto é inegável, mas poderíamos ter caminhado de forma muito mais eficiente no estabelecimento de nossas verdades se tivéssemos optado por sistemas em que há menos desperdício de energias e de recursos com a resolução de conflitos.

Continuamos olhando para a perspectiva, de escassez e de restrições em que é necessário que o mais forte prepondere sobre os outros para que a sua vida seja plena e tenha continuidade até onde for possível, até que os grandes cataclismos como a morte determinem a extinção.

Não há espaço para todos e, sendo assim, é necessário que os mais fracos sustentem o fausto do mais forte, que usufrui dos privilégios enquanto comanda o futuro do grupo. A problemática acontece exatamente por que o olhar de todos não é a favor do coletivo, mas a favor de suas próprias questões. O mais forte utiliza-se dos mais fracos de forma rude e cruel para experimentar o melhor que a vida oferece, mesmo que isto custe muito em termos de dor e sofrimento para os demais.

Como todos desejam o melhor para si próprios e sustentam pequeno olhar para o outro, surge poderosa insatisfação entre os mais fracos que se mobilizam para virar o jogo de forças. Não estão mobilizados pelo olhar do bem estar coletivo, mas pela possibilidade do usufruto do fausto a que estão negados devido à perspectiva de escassez e aos momentos de restrição a que foram submetidos. Exige-se uma compensação...

Há 2.000 anos recebemos uma informação diferente. Jesus, como o mais forte dos homens de sua época poderia ter utilizado seu poder para subverter o jogo de forças vigentes, reestabelecer o mando dos judeus, expulsar os romanos, erradicar doenças, evitar sua prisão e sua morte.

Sua atitude, entretanto, deu-se de forma diferente. Submeteu-se ao poder vigente da época e deixou-se imolar como consequência de medos e acusações descabidas provenientes daqueles que sentiam a posição de poder ameaçada pelo homem inicialmente visto como fraco, mas que em poucos meses foi capaz de arrebanhar milhares de pessoas à sua volta.

Sua mensagem foi tão vigorosa e controversa para o sistema de forças vigente até hoje que muitas pessoas duvidam da existência de tal homem, relegando-o ao campo dos mitos fantasiosos enquanto outras o aceitam como lunático ou louco. A sociedade ainda não consegue compreender a grandiosidade do homem Jesus a partir do olhar material de escassez que determina os sistemas de poder em um jogo interminável de conflitos pela supremacia do mais forte.

A ausência do desejo de poder de Jesus, seus posicionamentos diante da vida e sua grande capacidade de transformação do ambiente à volta revelam uma incógnita que nos permite finalmente endereçarmos questionamentos  à essência dos conflitos pelo poder baseados na supremacia pela força.

Para onde Jesus olhava ao se posicionar diante da sociedade ofertando conhecimento, consolo, esperança e ajuda sem cobrar nada em troca? Para onde esta poderosa figura olha ao deixar que pessoas aparentemente poderosas usem da força física para tirar-lhe o bem mais precioso, a vida, com a qual o indivíduo se significa e determina sua existência?

O olhar atento para a vida de Jesus nos mostra um homem que sabe que a vida possui um valor mais amplo, que vai além da dimensão material e que guarda motivos muito maiores de felicidade e de gozo que justificam os padecimentos na dimensão material.

Jesus vive de fato esta realidade, por nós chamada de espiritual, até então mal compreendida e mal vivenciada. Ele Descortina a superioridade da verdade espiritual em relação á verdade humana e propõe que enderecemos esforços no sentido da aquisição da verdade espiritual que se caracteriza por um ambiente de abundância, de plenitude em que todos poderão ser absolutamente felizes na medida em que se esforcem para tal.

Segundo Jesus a felicidade não é mais uma questão de nos colocarmos na vida com tamanha força que garanta uma partilha maior dos escassos recursos disponíveis. Pela verdade espiritual a força que devemos apresentar é a de domarmos nossas más inclinações, de sabermos viver em sociedade respeitando a jornada alheia e ampliando constantemente nosso olhar sobre a verdade divina a que devemos nos submeter.

Temos nos perdido nos sistemas de força e supremacia baseados na dimensão material e ainda temos dificuldade de investir de forma mais eficiente nos sistemas de força baseados na humildade e no amor ao próximo que propõe que nos integremos ao invés de nos segregarmos.

Como mudar o olhar?


Priorizar o olhar material sobre o olhar espiritual é, portanto, o desafio que se apresenta quando decidimos refletir sobre a reconciliação com os adversários. Sentimos uma verdade que ainda não compreendemos plenamente mas que nos dirige pelas ações materiais a conquistas preciosas que nos capacitam a melhor compreender as nossas verdades espirituais significando de forma diferenciada a verdade humana.

Acertaremos e erraremos em diversos campos de atuação durante nossas buscas e estes erros muitas vezes se repetirão até que tenhamos conseguido apreender as facetas da lei divina que nos exige atenção , mas é preciso que busquemos intensamente. Nossa caminhada deve ser realizada com grande afinco, com grande vontade e perseverança pois só assim desenvolveremos uma melhor compreensão a cerca de nós mesmos como espíritos imortais e de Deus enquanto amoroso e justo criador.

Durante nossa jornada nos defrontaremos com diferentes entendimentos a cerca dos mesmos pontos. Mesmo dentro do mesmo credo, inclusive na doutrina espírita. Seremos capazes de ler a vida de formas diferentes. Estas leituras proporcionadas por nossas histórias distintas, pelos conhecimentos que construímos nesta e em outras encarnações por vezes entrarão em conflito e é necessário que estejamos atentos para não nos perdermos em discussões e querelas a cerca de questões periféricas a ponto de prejudicarmos a caminhada como um todo.

É certo que em nossa jornada precisamos ser defrontados com leituras diferentes das nossas a respeito da vida para que possamos validar nossos entendimentos, ampliar questões e até mesmo abandonarmos pontos de vista equivocados. Mas também é certo que se caminharmos dando uma dimensão muito grande às diferenças sempre considerando que nós detemos o ponto de vista correto e o outro está sempre errado, estaremos comprometendo o entendimento coletivo por fazermos força para que sejamos o centro de todo o conhecimento e sabedoria, o que, em absoluto, sabemos que não é uma premissa verdadeira.

Sabemos que somos espíritos imperfeitos mergulhados em oportunidades de aprendizado e que, portanto, nenhum de nós será capaz de sustentar todos os pontos de vista sobre a vida material e espiritual de forma precisa em relação à lei divina. Precisamos complementar nossos pontos de vista com os olhares e conhecimentos dos outros, encarnados e desencarnados que partilham da existência conosco através das leis de sociedade e de trabalho.

Para nós a compreensão do conjunto será a soma das compreensões individuais e quando estamos abertos e receptivos a este fato, mais facilmente delineamos a visão do todo, mesmo que ainda restrito pela imperfeição do conhecimento coletivo ainda em desenvolvimento. Mantermo-nos abertos para outras verdades é, portanto, estarmos abertos ao trabalho em equipe que sempre se dará com mais eficiência reduzindo os esforços individuais e aumentando a capacidade de realização.

Mas para que esta união de esforços se dê, é necessário que estejamos dispostos a trabalhar em função dos pontos em comum de nossos olhares e a respeitarmos os pontos de vista divergentes dos nossos e seus portadores. É necessário que compreendamos que nosso ponto de vista é único e que atende às nossas premissas e conhecimentos, mas que é tão válido quanto os demais, especializados nas premissas e nos conhecimentos individuais do outro.

Falarmos de conciliação é considerarmos que na realidade todos nós estamos nesta jornada e que nossas visões míopes fazem com que tenhamos visões diferentes do que é o futuro espiritual e de como chegar até ele. Caminhar com sabedoria é, ao entender isso, perceber que não existe o melhor caminho, a não ser o que nós escolhemos, mas ele é melhor para nós, mas não para o outro.

É necessário que deixemos espaço na vida para que possamos trabalhar juntos para superar os desafios comuns que são aparentemente impossíveis de serem superados individualmente e deixarmos as nossas questões individuais para serem trabalhadas no campo individual, respeitando o outro e abrindo espaço para que sejamos respeitados em nossa caminhada.

Mas o que realmente importa? Quais são as grandes questões coletivas?

A busca do entendimento mais amplo a cerca de nossa individualidade através da utilização do nosso livre arbítrio, o profundo respeito ao outro com relação às suas escolhas, o desenvolvimento da capacidade amorosa a partir da percepção de que somos todos irmãos criados com a mesma origem e destino é o que realmente importa. Em outras palavras, a ampliação de nossos conhecimentos a cerca das leis divinas que regem a toda a criação deve ser a linha mestre de nossa conduta.

As demais questões que surgirão a partir desta questão central serão perspectivas periféricas, desdobramentos que não podem assumir um papel prioritário de tal forma que justifique nossos conflitos e a desunião.

Falarmos de conciliação de acordo com o ensinamento de Jesus é considerarmos que para atingirmos a sublimidade das relações com o divino em nossos altares é necessário que estejamos conciliados no ambiente das relações materiais, ou seja, que consigamos caminhar juntos com os irmãos em humanidade, mesmo que tenhamos pontos de vista diferentes. A transcendência da perspectiva material para a espiritual só se fará na medida em que sejamos capazes de vivenciar a dimensão material de acordo com a proposta da lei divina.

Toda a matéria em que estamos mergulhados e da qual nos utilizamos é uma ferramenta de trabalho que serve exatamente para que desenvolvamos nossa capacidade de perfeita integração com a criação através das relações solidárias.

Não herdaremos a terra no sentido material! A partir dela herdaremos a visão amorosa, espiritual da vida. Arando-a nos capacitamos a viver plenamente como espíritos imortais que somos.

Conciliar – um ato de caridade


Estamos na caminhada, encontramos pessoas que possuem pontos de vista diferentes dos nossos e muitas vezes estas pessoas utilizam-nos como degraus para estabelecer suas verdades, seus pontos de vista e seguirem à frente. Nos sentimos rebaixados, humilhados, reduzidos em importância diante da vida e este é o principal ponto que clama por nossa atenção!

Pensar conciliação não é considerar que temos que realizá-la por que está escrito nas escrituras sagradas, pela obrigação de nos conciliarmos, mas pelo entendimento de que a nossa visão do mundo, a nossa verdade, está incompleta e talvez até equivocada e que, por isso, nos sentimos ofendidos, ultrajados, carentes de destaque privilegiado em relação ao outro.

Quando nos sentimos ofendidos se faz necessário que olhemos para dentro de nós e nos questionemos a cerca da causa deste sentimento. Que visões míopes sobre a vida estão sendo despertadas com a ação do outro que busca, assim como eu, seu crescimento? Onde está a matriz destes sentimentos?

Esta matriz é que precisa ser avaliada e talvez reformada pois ainda não estamos sendo capazes de nutrir o espírito de trabalho em equipe junto a companheiros que, assim como nós, ainda não sabem seguir segundo a verdade espiritual e que, portanto, desrespeitam o outro, não o consideram nas suas realizações e carecem de privilégios para atravessar a ponte.

O outro tem o direito de atravessar o nosso caminho enquanto tenta acertar o seu, é lamentável que o faça às custas do aparente retardamento da nossa caminhada, mas se temos o caminho atravessado, é porque também precisamos vivenciar aprendizados naquela área. A justiça está presente em toda a criação e nada acontece por acaso!

A truculência, o desrespeito, as ofensas surgem como ferramentas da vida que nos proporcionam o desenvolvimento de competências e o outro que nos machuca, foi apenas o instrumento para a condução da nossa oportunidade de aprendizagem.

Quantas vezes nós somos os ofensores? Quantas dores e mágoas construímos em nosso trajeto por não termos conseguido perceber o outro? Que parcela me cabe na agressão a que estou sendo submetido?

Como na animação, a queda da ponte, ou seja, a agressão dos animais menores aos maiores, foi a consequência natural da postura agressiva e intolerante do alce e do urso em relação a eles próprios e aos demais passantes da ponte.

Cair da ponte perdendo o rumo escolhido e atrasando a busca pela verdade foi a dor necessária para que os animais despertassem e até mesmo se abraçassem, unidos pela dor comum da queda. O ato do coelho e do guaxinim foi apenas uma resposta, necessária, aos desafios propostos pela vida e que provavelmente terá que ser revista em algum momento futuro.

Na base de nossas respostas ainda está o orgulho e o egoísmo! Falar em conciliação é falar no pensamento coletivo e na necessidade de reduzirmos as necessidades de manifestação do ego em detrimento ao outro. O convite de Jesus para que busquemos a conciliação antes de buscarmos a Deus é um convite para olharmos nossos próprios sentimentos e para buscarmos a superação daqueles que nos machucam e incomodam. É uma convocação a olhar para outro, que também sofre, que também tem dificuldades e que, portanto, precisa de apoio.

Na hora em que nos colocamos no movimento de conciliação, exercitamos a humildade, o reconhecimento da necessidade do outro de caminhar daquela forma e da nossa necessidade de mudança do olhar material para o espiritual, começamos pensar não mais sobre a dimensão da escassez e da restrição, mas na dimensão da imortalidade, da abundância e da necessidade de esforço para a integração com o coletivo para sermos felizes.

Exercitar a conciliação é, portanto, um ato de caridade para com o outro em todas as suas dimensões.  É benevolência para com todos no momento em que criamos um campo coletivo de construção da visão espiritual do amor. É indulgência para com os equívocos dos outros por compreendermos que todos nós, mergulhados na dimensão material, somos incapazes de manter uma atitude perfeitamente reta a cerca da lei divina por desconhecermos muito a cerca de nós mesmos e da verdade divina. É também perdão à medida que nos oferecemos para o sacro ofício de vivenciar com o outro as suas dificuldades, dores e imperfeições que, invariavelmente redundará em alguns tombos e escoriações para nós.

Quando o Cristo deixou-se crucificar o fez por ter perfeita visão da realidade espiritual, por compreender que sua manifestação material tinha um propósito, o de ajudar aos irmãos menos adiantados e que este propósito pressupunha a abertura de campo de estudo, reflexão, e prática que resultaria em acertos e erros necessários aos aprendizes.

Negar-se à crucificação seria negar a dimensão espiritual da vida, invalidar todos os ensinamentos deixados, desmontar esperanças, virar pontes e atrasar caminhadas! Por isso Jesus cumpre a vontade de Deus e se deixa sacrificar pela imperfeição daqueles que ainda não o compreendiam.

A mensagem de Jesus, marcada pela aparente incoerência com os jogos de poder do mundo material, ficou registrada em nossa história e até hoje é matéria de estudo para aqueles que começam a despertar para a verdade espiritual. A conciliação e o perdão são máximas nesta construção que custam a ser compreendidos e vivenciados. Abrem as portas de acesso a um grau de espiritualização mais amplo a que tanto almejamos.

Que possamos nos humildar nos momentos em que somos agredidos abrindo espaço para que o outro salte sobre nós por entender necessário. Que possamos exercitar a generosidade diante da necessidade do outro permitindo que ele fique com a razão enquanto seguimos em paz.

Mas não nos esqueçamos do “sim sim, não não”! Sinalizemos nossas impressões, coloquemo-nos diante da vida com a maior retidão possível. Questionemos, instruamos sempre que possível. Acatamos os limites impostos a nós pelo outro, mas também sinalizemos para o outro com clareza e mente aberta a cerca de nossos limites.

Conciliar é vivermos em paz, sabendo que poderemos ser atingidos pelo erro do outro assim como poderemos atingir o outro com nossos erros, mas que é necessário seguirmos juntos, apoiando-nos para que possamos superar os desafios de aprendizado a que estamos submetidos.

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