quinta-feira, 24 de março de 2016

Posicionamento no Mundo

Posicionamento no Mundo

Adorar. Qual o significado desta palavra em nossas vidas? O que estaremos elegendo como dimensões de grande importância na vida, sem as quais não nos é possível viver, na direção das quais realizamos grandes esforços para nos mantermos ligados?

Meu primeiro impulso é pensar na adoração às coisas materiais, algumas delas bastante especiais, como a minha família, alguns alimentos e objetos que me remetem a momentos especiais vividos ou a expectativas de um vir a ser que muito almejo; como algo a ser evitado, até mesmo repudiado em favor de uma adoração pura, voltada à dimensão espiritual do ser. Mas como ligar estes entendimentos e caminhar na direção da proposição de Allan Kardec a partir dos ensinamentos dos espíritos sobre a Lei de Adoração?

Durante a leitura do capítulo senti que o que adoro é essencialmente o que me significa, o que é determinado pela minha natureza, por minhas origens e que caracteriza meus objetivos. E, desta forma, à medida que transformo o que adoro, sou capaz de alinhar minha caminhada, meus objetivos a um destino que continua a ser descoberto a cada encarnação e que, em algum momento me legará a felicidade como consequência natural.

Adorar, na minha percepção, é reconhecer o que me é importante, sem o que não é possível existir. É reconhecer algo e direcionar pensamentos, sentimentos e ações nesta direção.

Quando os espíritos falam em adoração como o reconhecimento de nossa pequenez diante do criador, ao qual acabamos por nos submeter, que nos situam como criaturas espirituais imortais e sugerem o amor como direção para nossas posturas; sinto que, de certa forma, a lei de adoração é o caminho da construção da humildade em sua acepção mais profunda, o sentimento que promove o sujeito ao reconhecimento do seu lugar no mundo e que ajuda a definir posturas a partir deste lugar, levando o sujeito a cumprir seu papel com sentimento de alegria.

Quando digo que adoro chocolate, por exemplo, reconheço a importância do chocolate em minha vida. Estou declarando minha intenção de direcionar esforços no sentido de estar próximo ao chocolate, de viabilizar possibilidades de consumo a fim de estabelecer momentos de bem estar e felicidade que me completem. À medida que percebo que o consumo de chocolate gera danos colaterais como vício, diabetes e obesidade; vejo-me obrigado a moderar minha prática de consumo a fim de, efetivamente, garantir o bem estar que tanto procuro e que descubro não residir unicamente no consumo do chocolate propriamente dito.

Ao longo de nossa história como Espíritos temos experimentado através dos mergulhos na matéria a possibilidade de descobrirmos nossa identidade e, a partir dela, o nosso papel no mundo. É uma longa jornada e acontece à medida do que conseguimos perceber efetivamente o que somos.

Inicialmente nos distinguimos da matéria inanimada como seres inteligentes capazes de interagir no mundo de forma diferenciada, inteligente. Manipulamos o mundo para atender às nossas necessidades e adoramos a tudo que nos dê prazer ou que possa atender às nossas expectativas suprindo as lacunas de nosso desconhecimento. Reconhecemos inteligências superiores que se manifestam em campos desconhecidos e as adoramos com o objetivo de estabelecer relações proveitosas, através das quais nos seja possível viver em paz.

No passado as relações de troca com as inteligências invisíveis, os deuses, eram comuns e ofertávamos presentes de valor com o objetivo de recebermos em troca as vantagens materiais que pudessem nos deixar confortáveis e felizes, mesmo que isso significasse o sofrimento de outras pessoas. Percebíamos a necessidade de adoração, mas não a compreendíamos em essência.

Neste contexto acabamos por realizar sacrifícios humanos com a intenção de reconhecer o que nos é importante e de nos aproximarmos cada vez mais deste algo. Mas, à medida que nosso conhecimento intelectual se desenvolve, que o entendimento sobre as coisas se amplia, nossa capacidade de discernimento fica maior e passamos a questionar os hábitos tradicionalmente estabelecidos na sociedade, mesmo os de adoração. É o progresso do espírito imortal que começa a descobrir novas dimensões e que precisa aprimorar sua forma de se manifestar no universo, precisa caminhar na direção do progresso moral.

As práticas materiais e infantis de adoração, movidas pela sinceridade daquele que busca o divino e que ainda não percebe com clareza a sua dimensão espiritual e sua destinação, passam a ser menos toleradas pela própria consciência, que cobra do indivíduo posturas mais amadurecidas, menos materializadas e mais alinhadas com a dimensão da lei maior, a de amor, conforme enunciada por Jesus; “Amarás a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo”.

Aos poucos percebemos os valores que realmente importam e compreendemos que nossa postura não se relaciona com a troca com o invisível em favor da vida material plena, mas com a ampliação de nossas consciências, que nos leva a assumir um papel no universo, determinado desde nossa criação, o de cocriadores obedientes à lei divina.

O aprofundamento da compreensão da lei de adoração nos leva a perceber que precisamos nos alinhar com o divino e que, sempre que assim fazemos, recolhemos do universo os recursos que facilitam a caminhada. Sintonizamos com as forças amorosas de progresso e plenitude que atendem às nossas rogativas.

Já somos capazes de entender que as posturas mentais e a construção de sentimentos elevados, que nos levam a ações de caridade e que caracterizam o ato de adoração mais condizente com nossas consciências, são exatamente a proposta de que Kardec nos fala no capítulo em estudo.

Já temos condições de deixar para trás os sacrifícios, os objetos de adoração e os rituais em favor de nosso posicionamento mental que busca a dimensão espiritual, independente das relações com a matéria, mas que nela se manifesta através de nossa atuação consciente.

É claro que ainda precisaremos por algum tempo de nossos signos.  Ícones ou lembretes das experiências de elevação por nós vivenciadas e que nos remetem aos objetivos por nós traçados para o futuro espiritual, direcionando nossos corações para o cumprimento do dever moral. Mas é importante mantermos em mente que o movimento é de percepção da dimensão espiritual de nossas existências, de desprendimento da dimensão material, que passa a ser vista como ferramenta de trabalho para a construção da consciência de nós mesmos enquanto espíritos imortais hora encarnados.

Diante deste quadro, que se nos abre pelo estudo da lei de adoração conforme proposta por Allan Kardec em o Livro dos espíritos, entendemos a palavra de Paulo de tarso que nos fala “Tudo me é lícito, mas nem tudo me convém”.

Temos a liberdade de agir de acordo com a nossa vontade. Temos o livre arbítrio para agir. Mas é importante percebermos que algumas destas ações tratam de tradições construídas, automatizadas, ao longo da história e que já não são mais condizentes com o grau de consciência moral que conseguimos desenvolver. Foram práticas importantes e aceitas no passado, mas hoje nos causarão dor em algum momento.

O espiritismo nos abre um novo tempo. O tempo da vida de contemplação do divino que nos coloca em constante movimento na direção da espiritualização, da desmaterialização de nossas manifestações espirituais, da desconstrução do orgulho e do egoísmo, da mobilização de nossas potencialidades para a prática da caridade em seu sentido amplo, a benevolência para com todos, a indulgência para com as imperfeições alheias e o perdão das ofensas por nós percebidas.

Começamos a sair da vida contemplativa em que vivíamos congelados no tempo evitando as tentações e fugindo de nós mesmos sob a alegação de que nos dedicávamos à iluminação espiritual para adentrarmos a um tempo de ativismo consciente no universo. O pai não descansa! Trabalha sempre e assim posiciona nossa destinação.

Que possamos integrar cada vez mais nossos potenciais energéticos nas correntes de amor e plenitude que regem o universo. Que estejamos cada vez mais submissos à vontade do pai e assim cada vez mais felizes. Que possamos trabalhar intensamente por nós, pelo próximo que se apresenta em nossas vidas, pela sociedade que nos acolhe, pelo universo que nos significa.

Integremo-nos à lei de adoração.




Referências bibliográficas

  • O livro dos espíritos, Allan Kardec, 3ª. Parte, capítulo II – A lei de Adoração
  • O Grande enigma, Leon Dénis

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