terça-feira, 5 de abril de 2016

Medidas de mim mesmo

Medidas de mim mesmo

Sonhei que estava me sentindo sufocado, sem voz em um pequeno sobrado onde morava. Não havia espaço para viver com tantas pessoas e opiniões diferentes.

Daí uma pessoa que eu não conhecia me convida para os fundos do sobrado. Era uma parte que eu não conhecia da minha própria casa, uma segunda casa, ampla, bela e bem conservada. Estava desabitada, totalmente em silêncio. Era solitária e acho que por isso a havia abandonado.

Naquele momento senti a vontade de abandonar a casa da frente e passar a viver ali, mas a pessoa que me conduzia levou-me para os fundos e tive uma nova surpresa.

Um belo jardim existia ali e eu nem o conhecia. Ao fundo dele existia uma escadaria que me levava a uma trilha por uma floresta escura e tenebrosa. No inicio da escadaria um guarda costas enorme vestido de terno guardava o lugar.

Senti que era impedido de acessar aquela área, como se aquele fosse o limite de minha residência. Meu guia seguiu pela escada. Hesitei mas o segui. A floresta era uma fachada para um lindo bosque e logo após havia uma vila pitoresca cheia de comércios, como se fosse um pequeno shopping destes de interior, um lugar aconchegante! Tive vontade de me mudar para aquela vila.

Havia muita paz e harmonia, as pessoas eram sorridentes e tolerantes e não havia fila para nada. Parece que aquela vila funcionava em um estágio mais civilizado do que o local onde eu morava, completamente diferente da loucura da minha casa principal.

Andamos pelas ruas. Não havia carros e todos andavam sorridentes e despreocupados. Muitas flores, árvores frutíferas e animais brincavam. Até mesmo os animais selvagens eram mansos como cordeiros.

Cheguei à casa de minha anfitriã. Era uma moça baixa, magra, delicada e gentil, embora apresentasse alguma deficiência física que a tornava frágil. Senti que éramos amigos de longa data. Ela me conduziu para um escritório decorado de forma singela e aconchegante que era ao mesmo tempo seu quarto.

Lá havia uma mesa, um computador e duas cadeiras onde sentamos. Ela iniciou uma aula de geometria que me encantou. A simulação no computador apresentava um ponto e voltei ao ensino médio....

- Para definir um ponto usamos eixos para significá-lo, tantos quantas sejam as dimensões consideradas. – Disse-me ela com cordial afeto.

A simulação começou em uma única dimensão e, para cada dimensão, mostrava a definição de um eixo de referência a partir dos quais a distância do ponto era medida. Centenas de medidas nas dezenas de dimensões apresentadas pela simulação compunham uma matriz infinita de coordenadas!

- É tudo uma questão de referência - dizia ela com um sorriso acolhedor.

- Identificamos as dimensões que nos significam e a partir delas definimos eixos de referência para que possamos nos posicionar.

- As dimensões serão tantas quantas tenhamos condições de perceber e os eixos de referência seguem à medida de nossas escolhas, de nossas conveniências e competências.

- As medições possuem incertezas e a cada vez que as realizamos questionamos se a incerteza é suficiente para nos significar de forma satisfatória.

- À medida que nosso discernimento cresce, alguns fenômenos acontecem. – Disse-me ela abrindo uma apresentação no computador onde slides ilustrados pontuavam cada um deles.

- Questionamos a incerteza da medida e buscamos formas de medir melhor. Isto causa um mergulho profundo naquela dimensão e mantemos o nosso eixo de referência como único foco. Isto causa enorme desconforto pois não nos sentimos satisfeitos. Estamos deixando de lado outras dimensões, mas sentimos a necessidade resolvermos aquela para sermos capazes de replicar a forma aprimorada de medição de nossa posição em relação aos eixos. Isto nos dará medidas mais aprimoradas nas outras dimensões que conhecemos.

- À medida que mergulhamos naquela dimensão através da medição de nós mesmos em relação aos eixos de referência escolhidos (significação em relação à dimensão), percebemos que há outras posições mais convenientes para posicionarmos nosso eixo de referência e o reposicionamos. Isto causa enorme desconforto pois temos novas medidas, totalmente diferentes das anteriores e perdemos o nosso significado até nos acostumarmos com a nova medida (é semelhante a viajar para um outro pais. A economia é totalmente diferente da nossa e temos dificuldade de saber se estamos pagando caro ou barato pelos produtos e serviços que consumimos).

- Conforme nos resolvemos (nos acomodamos com a posição do novo eixo de referência e com a medida de distância que conseguimos realizar), sentimo-nos seguros para usar a mesma metodologia de medida de distância nas outras dimensões. Mas aí já sabemos que também podemos reposicionar o nosso referencial na outra dimensão e questionamos a escolha anteriormente feita usando as competências adquiridas na última  dimensão estudada.

- Este estudo aprofundado das dimensões onde estamos trabalhando para posicionarmos bem os nossos eixos de referência e o esforço para reduzir as incertezas da medida nos levam à descoberta de outras dimensões e nos sentimos reticentes, como se guardas impedissem o nosso acesso, como se não tivéssemos direito àquela dimensão.

- O medo surge pois a nova dimensão pode ser tão grandiosa e maravilhosa que pode significar abandonarmos as dimensões anteriores e todas as medidas que nos significaram. Mas o desejo de ter mais precisão na definição de nós mesmos faz com que mergulhemos na nova dimensão enfrentando o guarda da fronteira que, na realidade, estava ali para impedir que influências muito fortes da dimensão nova nos atingissem com enorme vigor enquanto não éramos capazes de compreendê-la. O guarda nos guarda ao invés de nos impedir o acesso!

- A descoberta de uma nova dimensão provoca a necessidade de traçarmos novo eixo de referência e de medirmos nossa distância em relação a ele, embora saibamos que aquele eixo de referência é temporário e que em breve nós o mudaremos de lugar pois conseguimos compreender melhor a nova dimensão.

- Com o passar do tempo são tantas as dimensões relativas que nos significam que começamos a questionar. Se eu escolho o lugar dos eixos de referência que uso para medir meu posicionamento naquela dimensão (a definição de quem eu sou), posso existir enquanto ponto de forma independente ao lugar que ocupo nas dimensões conhecidas.

- Voltamos ao ponto de partida com maior aceitação de tudo o que somos e nos harmonizamos. Entramos em equilíbrio em relação à única medida possível, que é absoluta e inquestionável, através da qual nos é possível realmente atingir a um significado essencial, nós mesmos! Voltamos ao ponto e nos contentamos com ele.

- Mas nossa capacidade continua a se desenvolver e em algum momento perdemos o nosso próprio prumo. Sentimos que nosso equilíbrio está em jogo pois a incerteza de nossa medida a cerca de nós mesmos torna-se insuficiente para nos definir. Começamos a revisitar as dimensões que conhecemos para melhorar a incerteza da medida e o exercício começa novamente com a redução das incertezas da medida, com o reposicionamento dos eixos de referência e com a descoberta de novas dimensões até que cheguemos à nova redução na direção de nós mesmos. Percebemos que o equilíbrio não é estático, mas dinâmico e que é mantido na medida em que nos movimentamos em direção a nós mesmos.

Transferi para meu diretório na nuvem a simulação e a apresentação, o computador foi desligado e conversamos mais um pouco sobre a vila e amigos em comum. Recordava-me agora claramente de tantos companheiros que me sentia verdadeiramente em casa.

Despedi-me da querida amiga agradecendo a possibilidade de compreender o momento de angústia por que estava passando e fiz o caminho de volta despedindo-me alegremente dos moradores da vila.

Havia revisitado a ideia a cerca da lei divina que rege nossas vidas em infinitas dimensões, percebi a necessidade constante do trabalho que nos desloca de nós mesmos para aprimorar a nossa percepção a cerca de nós mesmos e ainda tinha revisto amigos de longa data de cuja separação causa enorme e intraduzível saudade a ponto de sentir-me órfão em minha própria casa.

Estava grato ao Universo, à criação e a mim mesmo, reconhecendo que sou parte de tudo o que está à minha volta.

Atravessei a floresta sem ser tocado pelo deslumbramento inicial, como se não houvesse nada de fantástico naquele local. Desci a escada e o guarda costas já não estava lá a guardar o acesso da escada.

Passei pelo jardim, colhi algumas flores e adentrei a casa bela e vazia. Contemplei tudo aquilo e senti saudades das pessoas que estavam na casa da frente. Lembrei-me que eram minhas convidadas e que deveriam estar à minha espera. Segui para frente, mas agora com novo ânimo.

Ao chegar na agitação da festa em curso a disposição era outra! Senti que aquelas pessoas que ali estavam atenderam ao meu convite e que, portanto, tinham profunda relação comigo. Comecei a distribuir as flores e a conversar alegremente com todos.

Acordei feliz por ter reencontrado amigos, colhido flores e compreendido o significado do aparente tumulto em que vivo. Um sentimento enorme de gratidão invadia o meu ser e fiquei pensando em quantas dimensões mais existirão na vastidão da criação de Deus para serem descobertas.

Talvez ainda estejam sendo criadas novas dimensões através das quais toda a criação é levada a se ressignificar em constante e infinito movimento de pesquisa a cerca de si mesma. Mas aí já são conjecturas do homem imperfeito e imaturo consciente a cerca de pequena parte de si mesmo que contempla as estrelas do céu.





Referências bibliográficas

  • O livro dos espíritos, Allan Kardec, 3ª. Parte, capítulo 1 – A lei de divina ou natural
  • O livro dos espíritos, Allan Kardec, 3ª. Parte, capítulo 2 – A lei de Adoração
  • O livro dos espíritos, Allan Kardec, introdução, item 6
  • O Evanglho segundo o espiritismo, Allan Kardec, capítulo 1 – Não vim destruir a lei
  • O Evanglho segundo o espiritismo, Allan Kardec, capítulo 2 – Meu reino não é deste mundo
  • O Evanglho segundo o espiritismo, Allan Kardec, capítulo 3 – Há muitas moradas na casa de meu pai

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