sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Vozes nas sombras

Comecei a ler um artigo publicado pela France Press e traduzido no site da Folha Online, “Apoio à mulher que agrediu o papa no Facebook causa polêmica na Itália”, e comecei a pensar no assunto sobre a ótica espírita. O artigo trata de um fenômeno que é relativamente comum na Internet e fora dela. O apoio dado por centenas de pessoas a indivíduos que cometem crimes ou que se comportam de forma socialmente questionável.

O autor começa relatando o apoio dado a Suzanna Maiolo, que derrubou o papa propositalmente, no dia 24 de dezembro, e que já recebeu o apoio de uma centena de simpatizantes. A partir deste relato, a matéria abre um debate a cerca da necessidade de regulamentação da internet e talvez até mesmo da aplicação de censura ao meio de comunicação.

Achei curioso falarmos em repressão, em regulamentação e censura, mas não pararmos para pensar sobre o que leva as pessoas a manifestarem-se a favor de ações equivocadas ou que provocam danos a terceiros. Será que o foco de nossa atenção deve ser colocado unicamente na necessidade de regulação dos meios através dos quais os seres humanos se manifestam?

Lembrei-me do livro Grandes e Pequenos Problemas (Angel Aguarod, FEB, 2006), no capítulo “O problema da submissão”, em que o autor e seu mentor espiritual abordam a questão da submissão, atitude facilmente observada entre os espíritos muito evoluídos, mas que também pode ser vista entre as pessoas incapazes de fazer oposição às circunstâncias da vida.

No capítulo, o autor apresenta a ideia de que a ignorância e a incapacidade de opor resistência a uma situação leva o indivíduo a submeter-se; sem que signifique, necessariamente, tratar-se de um ser espiritualmente evoluído.

Ao trabalhar a ideia, Aguarod afirma ainda que os indivíduos ignorantes a respeito da lei de Deus submetem-se às situações, mesmo descordando delas, por não verem outra possibilidade de ação, por medo de serem penalizados pelo pensamento dominante caso ajam de forma diferente; afirma ainda que esta submissão é apenas aparente e que, tão logo possam manifestar-se de forma contrária, fazem-no, colocando toda a força possível para manifestar seu descontentamento; manifestam-no também quando sentem-se seguros, entre os seus e longe dos mecanismos coercitivos da sociedade.

Aguarod pondera ainda sobre a submissão dos espíritos que compreendem a vontade de Deus, indica que tal atitude é fruto de seu desenvolvimento espiritual avançado que os faz perceberem realmente uma oportunidade de aprendizado e de construção da felicidade a que tanto aspiram.

Pela compreensão da doutrina espírita é fácil identificarmos a função educativa oferecida pela submissão forçada devido à falta de opção e usada como mecanismo de auto-preservação, assim como todas as situações de vida oferecidas a um espírito.

Defendo, entretanto, a posição de que não devemos contar simplesmente com este mecanismo da coerção para o aperfeiçoamento de nossa sociedade. O Cristo nos ensina a importância da caridade como mecanismo de desenvolvimento espiritual e como única ferramenta capaz de garantir a construção de uma sociedade mais justa e feliz, conforme nos ensina Allan Kardek na introdução de O Evangelho Segundo o Espiritismo.

Por que então não abrirmos nossos corações para perceber vozes silenciosas que gritam insatisfeitas nas sombras clamando por atenção e oportunidades de crescimento? Por que não nos dedicarmos a centenas de pessoas que apresentam pontos de vista diferentes do nosso e que são espíritos imortais em processo de crescimento? Por que não criar planos de desenvolvimento adequados às pessoas que ainda não compartilham do mesmo ponto de vista do Cristo ao invés de simplesmente calar suas vozes através de ações repressoras e punitivas? Por que não estabelecer um canal dialético de comunicação com vistas à construção de uma sociedade mais crítica ao invés de simplesmente coibir, restringir, censurar e punir?

Se considerarmos ainda que, apesar de autores da linha de pensamento predominante em nossa sociedade, também somos espíritos em processo de desenvolvimento; teremos que admitir ainda somos capazes de cometer muitos equívocos em nossas ações, o que nos leva a ponderar sobre a necessidade de modificarmos muitos modelos de pensamento, muitas forma de agir e de tratar as pessoas. Somos levados até mesmo a ponderar sobre a possibilidade real de que algumas destas vozes que se submetem às nossas estejam certas e simplesmente estejam caladas porque somos mais fortes ou mais influentes e podemos lhes causar danos.

Talvez percebamos que muitas vozes que apresentam pontos de vista mais apurados que os nossos quanto à percepção de Deus estão calados, ou atuando silenciosamente, plantando as sementes que produzirão frutos em nossos corações em um futuro muito próximo. Homens e mulheres de vida simples, poucos conhecimentos do mundo mas moralmente superiores e que trabalham incansavelmente para aliviar a dor, aplacar a fúria e conduzir as almas sofridas a posições de perdão e aceitação de suas condições por tratar-se de uma forma de aprendizado da Lei de Deus, conforme proposto no capítulo O Julgo Leve de O Evangelho Segundo o Espiritismo.

Pensamos então em outro precioso ensinamento contido em O Evangelho Segundo o Espiritismo; Não julgarmos para não sermos julgados pelos mesmos critérios, ou ainda, perdoarmos para sermos perdoados, como é possível apreender na passagem do evangelho em que o devedor pede clemência a seu credor, que lhe dá mais prazo ao invés de executar a dívida para, logo em seguida, na posição de credor, ser inclemente para com seu devedor e acabar também tendo sua dívida executada e sendo levado à prisão.

Temos visto um movimento constante de construção de guetos, de segregação de pensamentos e o estabelecimento de um perfil de pensamento que deixa de fora um número cada vez maior de pessoas, um pensamento de segregação que busca estabelecer a identidade através da exclusão.

Temos visto também o desenvolvimento constante de mecanismos de proteção e repressão, que buscam assegurar o cumprimento de um conjunto de regras estabelecidas em favor da ordem social e da manutenção da identidade de grupo, mas que foram definidas pela minoria mais forte e dominante e que, por natureza, garantem a manutenção do poder.

É verdade que esta mecânica de construção de minorias que visa tirar o melhor proveito das situações, aliada à promessa irreal de que é possível nos integrarmos às minorias dominantes desde que nos comportemos como ela, paradigma usado como ferramenta de submissão, tem gerado muita frustração e expectativa junto aos excluídos, mas também tem nos conduzido a reflexões cada vez mais aprimoradas e que são a porta para a revisão de nossos pontos de vista e melhoria de nossa sociedade. Há um número cada vez maior de pessoas insatisfeitas e que simplesmente não conseguem ingressar nos grupamentos dominantes. Nos questionamos se estas regras são realmente justas e começamos a lutar para modificá-las

Talvez possamos usar estas sinistras estatísticas que comprovam o eco das minorias insatisfeitas para refletirmos sobre nossas aspirações, sobre a necessidade de integrarmos uma minoria e sobre a necessidade de reformularmos nossos pensamentos em favor do estabelecimento de uma ótica universalista que integra a todos os filhos de Deus em um único grupamento.

Talvez devamos usar estas mesmas estatísticas para percebermos a urgência de políticas de promoção do indivíduo, a necessidade de construção de um pensamento crítico e libertador que integra ao invés de segregar.

Quem sabe juntamente com os mecanismos repressivos e de censura não devemos também tentar identificar a necessidade destas pessoas que encontram na Internet uma forma de manifestar suas ideias, anseios e necessidades?

Quem sabe não consigamos identificar, através deste estudo, pontos em nossos pensamentos que podem ser aprimorados, melhorados a fim de caminharmos de forma mais eficaz para a felicidade espiritual?

Um comentário:

  1. Ual, que colocação interessante...
    Estou te conhecendo através de um comentário que deixou pra Elaine do Blog Entendendo a Doutrina Espírita.
    Concordei com seu comentário de lá e seu post daqui...
    Tenho um Blog em homenagem ao ator Johnny Depp, que acredito às vezes, que meu amor por ele vem de outras vidas... risos Mas de uns tempos pra cá comecei sentir necessidade de através do Blog, colocar postagens relacionadas com o que o Espiritismo nos ensina, saírmos do comodismo e talvez tentar através das postagens evangelizar... Gostaria muito que fosse me fazer uma visita e analisar o Blog através do seu ponto de vista, que acredito ser muito sincero.
    Ah, se puder gostaria que nos seguisse para que pudesse divulgar seu Blog e se tiver um button, gostaria de leválo comigo.
    Abração fraternal de luz e paz!!!
    Jackeline-Curitiba-Paraná
    http://johnnydeppmadness.blogspot.com/

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